Agradecemos a preferência

O BraunCafé deseja a todos um Feliz Ano Novo com muita diversão, saúde, ótimas companhias, amor, boas surpresas gastronômicas, paz, muitos brindes alegres, um Engov antes e outro depois.

E que em 2007 este blog complete um ano de vida, servindo bem para servir sempre!

Deu crepe

É difícil ficar órfão de um restaurante. Desde que o Crepe de France fechou suas portas na Vila Nova Conceição, os paulistados perderam a leves e deliciosas galettes sarrasin (crepes de trigo sarraceno) servidas com cidra francesa.

Na casinha simples da Rua Marcos Lopes, decorada com pôsteres da Bretanha, região noroeste da França, o chef Frédéric Serre explicava em seu cardápio que o trigo sarraceno, um tipo comum na região, tinha entre seus atributos, a vitamina "P". O importante era que os crepes eram fantásticos. O de espinafre com molho bechamel, queijo e ovo estrelado e o de pêras em calda de chocolate ao rum [flambado] com sorvete de creme eram meus favoritos.

Como não adianta chorar, o jeito é buscar um substituto à altura. Os caçadores do crepe perdido, no entanto, têm encontrado certa dificuldade em completar a missão.

O Crepom, por exemplo, oferece crepes simples e gostosos a preços acessíveis, em uma charmosa casinha na Vila Madalena. O ambiente à luz de velas é bem romântico se a dona não estiver de mau humor ou se a casa não ficar lotada, desbaratinando os poucos garçons, como ocorreu no sábado passado (23/12).

A creperia oferece cervejas em garrafa de 600 ml. Fique com as cervejas. Da carta de vinhos, por exemplo, o vinho "Do Lugar", da região de Bento Gonçalves - cujo nome não é um trocadilho com vinho "da casa" como imaginei - tem preço convidativo, mas o esforço não vale a pena. Na última tentativa, a bebida estava quase quente, sinalizando que o armazenamento precisa de cuidados.

Outra busca da gallete perdida ocorreu na noite de sexta-feira (29/12), na Mercearia do Francês, em Higienópolis, que tem crepes de trigo sarraceno no cardápido. Frustração. Liguei antes de sair para verificar se o local estava aberto e fui informada de que estava funcionando normalmente até 1h.

Cheguei antes das 22h, fui atendida por um garçom que não parava de olhar no relógio, equanto anotava os pedidos. Também deixou clara sua impaciência na explicação dos pratos. O crepe, infelizmente, não superou a indelicadeza. A massa, pesada, mais parecia um croque moussier do que uma galette.

Quando o garçom veio retirar os pratos e perguntar se queríamos a sobremesa, respondi calmamente que iria esperar mais um pouco. "A cozinha vai fechar senhora", respondeu apressado. Pedi um café e a conta... com pressa de ir embora.

Para arrematar, na saída, uma mesa de três mulheres pediu para que o garçom chamasse um táxi. "Ah... taxi a essa hora, aqui, vai ser difícil...". É mole?

Acredito que datas comemorativas como Natal e Ano Novo demandem plantões e horários especiais em restaurantes, mas nada justifica a má vontade em atender os clientes. Nestes casos é melhor não abrir as portas.

A busca do crepe perdido continua em 2007...

Crepom - Rua Paulistânia, 602, Vila Madalena. Tel: (11) 3032-7907

O Cristo, o Sobrenatural e o Bonde do rolê

Outra saideira, desta vez, do Rio de Janeiro. Da semana de férias, em agosto, ficou faltando uma receita de diversão na cidade maravilhosa.

Em uma bela manhã de sol pegue um taxi até o Cristo Redentor. O taxista vai ouvir seu sotaque e lhe oferecer uma corrida completa até o topo do morro do Corcovado por 90 reais. Dispense. O trem faz um passeio super gostoso, com uma vista linda por 36 reais.

Na volta do Cristo, siga para o morro de Santa Tereza para um belo almoço no restaurante Sobrenatural, especializado em peixes e frutos do mar. Nosso anfitrião foi Eugene, querido amigo que mora no Rio há anos. Foi a segunda vez que estive com ele lá para outro almoço fenomenal. A primeira foi no carnaval de 2004, com Eugene e a querida Pepa, quando provamos casquinha de siri e uma senhora moqueca de camarão.

Este ano, a pedida foi uma porção de pastéis de camarão, Original gelada e uma saborosa moqueca de namorado, que serve bem três pessoas. Ah! Se você gosta de samba [e bom sujeito é] veja a programação de rodas de samba do restaurante.

Para fazer a digestão, dê uma caminhada pelo charmoso bairro, que tem todo um jeito de centro histórico com um pique de Vila Madalena. Nas estreitas ruas de paralelepípedo, casinhas antigas viram restaurantes, lojas de artesanato, cinemas, residências, centros culturais e ateliers, abertos uma vez por ano, para visitas. É o evento Arte de Portas Abertas, que este ano aconteceu no final de julho.

O passeio estava ótimo, mas começou a escurerecer. Era hora de pegar o bonde do rolê. O passeio, com bastante emoção, custa apenas 60 centavos. Impressionante ver como aquele bonde do arco da velha passa chacoalhando sobre os arcos da Lapa, numa boa. Impressionante também é o equilíbrio do cobrador. Ele pega o dinheiro, dá o troco, pergunta se você já pagou e bate papo com o condutor, enquanto você procura um inexistente cinto de segurança ou se agarra fortemente ao banco para não saltar antes da hora. Melhor do que muita montanha-russa por aí.

O ponto final do bonde de Santa Tereza fica logo após a Lapa. Andando um poquinho caímos na Cinelândia, em pleno fim de expediente. Pegamos o fluxo da multidão e encontramos o clássico Cine Odeon. O teatro, todo reformado, é lindo. Deu gosto de ver o filme. Final feliz.

Sobrenatural - Rua Almirante Alexandrino, 432 - Santa Tereza. Tels: (21) 2224-1003 / 9465

Manjar dos deuses. Receita dos mortais

Nunca tive muita paciência para fazer doces. Tem aquela coisa toda de 'ponto de calda', de 'não abrir o forno porque o bolo não cresce' etc. Até me arrisco a fazer um pudim de leite, que há tempos não preparo, mas acho que rola uma certa insegurança ou até uma imperdoável preguiça com sobremesas.

Em seu livro "Afinal, As Receitas do Les Halles", o chef rock´n´roll, Anthony Bourdain, diz que a comida sente essa insegurança e desanda mesmo. Na dúvida, prefiro não arriscar. Vai que o creme brulée saca que estou tremendo na base?

Admiro as pessoas que gostam de fazer doces, que preparam um bolinho após o almoço para o café da tarde, que servem um belo jantar finalizado com uma deliciosa madeleine "fácil fácil" de preparar.

Após uma deliciosa ceianeste Natal e [quase] nenhum espaço livre no estômago para a sobremesa, resolvi provar o manjar de coco feito pela minha tia Maria Elza, a tia Loque, irmã da minha mãe.

Após a primeira colherada daquele manjar dos deuses, tia Loque foi logo revelando a receita dos mortais. Sim, meus caros, uma sobremesa pode ser simples, gostosa e de preparo tão fácil que dá até vergonha não tentar fazer. Aí vai: 

Manjar branco

Uma lata de creme de leite (sem soro); uma lata de leite condensado; um vidro de leite de coco - tudo isso pode ser na versão light, garotas - e um pacote de gelativa incolor, sem sabor (aquela que vem em folhas).

Hidrate a gelatina em 250 ml de água morna (50º C) e 250 ml de água gelada. Insira os demais ingredientes e misture com um fuê (aquele batedor de claras em neve). Coloque a mistura em uma forma - se for de teflon unte previamente com um pouco de manteiga e esqueça a versão light. Coloque no freezer por duas horas e depois passe para a geladeira. Sirva no dia seguinte.

A calda de ameixas tem aquela história de 'ponto de calda', mas não se intimide. Derreta uma xícara de açúcar, coloque uma xícara de água, dissolva e despeje uma xícara de ameixas secas. Deixe reduzir um pouco para pegar o tal 'ponto' e pronto!

Nível picolé: Outra sobremesa bem simples e deliciosa é o cheese cake da doceira DiCunto, que levei na ceia de Natal. Você pega o carro, vai até a DiCunto mais próxima - Mooca, Tatuapé ou Itaim - compra a massa pronta, faz uma calda com a geléia de sua preferência, diluída em um pouco de vinho branco, e manda bala. Fácil, fácil!

Você acredita do termômetro?

Nunca vou me esquecer da primeira vez que minha mãe comprou o peru Sadia já temperado que vinha com um termômetro para indicar quando o assado estava pronto.

Acredito que tenha sido em meados da década de 80. Foi uma sensação, um símbolo da mudança de comportamento da mulher moderna, que trabalhava fora, cuidava dos filhos e ainda tinha de se encumbir do preparo da ceia perfeita.

O termômetro do peru vinha para salvar as mulheres multitarefas e hipnotizar as crianças em frente à espera do momento mágico em que a pontinha vermelha subiria. Eu, obviamente, era uma delas.

"Você acredita no termômetro do peru?", perguntei, neste Natal, a Marisa, minha mãe, a mulher moderna e prática, que vivia dando 'pito' na filha por ficar no calor da cozinha a espera do grande truque. "Não acredito filha", respondeu agitada, enquanto terminava os preparativos para colocar a ave - com termômetro - no forno.

Em todos estes anos, Marisa não deu muita bola para o termômetro. É mais uma referência. O que vale, segundo ela, é "um bom vinhadalho - bastante alho, vinho branco, sal e ervas -, pelo menos duas horas de forno com a parte brilhante do alumínio virada para dentro, depois você tira para dourar, mas não pode deixar ficar seco". Pura intuição culinária.

Pouca coisa mudou desde a invenção do termômetro do peru e do 'ave Chester'. E, sinceramente, acho que alguns segredos culinários, que sobrevivem por gerações, não se abalam com a tecnologia. Talvez porque nada supere amor, muita paciência, sensibilidade e o famoso 'olhômetro'.

Confesso que, uma hora depois, passei pela cozinha e acendi a luz do forno para ver se, naquele exato momento, o termômetro se manifestava. Tradição é tradição.

Saideira de BH

Esse não posso deixar de indicar. O bar Temático é endereço certo, em Belo Horizonte, para quem procura ótima comida e algumas peculiaridades. A começar pela gigantesca cabeça de galo pendurada na parede principal do salão, deixando bem evidente que o território é atleticano.

Logo acima do cabeção está um luminoso destacando os pratos concorrentes das edições do festival Comida di Buteco. As fotos dos pratos, que misturam culinária mineira e nordestina, dão água na boca, mas os nomes merecem destaque.

Entre os concorrentes de outras edições do festival estão o "Fenômeno nu Barraco de Chantilly" (joelho de porco defumado, língua defumada, mandioca cozida na manteiga de garrafa e doce de jiló) e o "Frustração de Noiva" (lingüiça caipira atropelada, mandioca cozida, pirão de leite, manteiga de garrafa e feijão de corda ao vinagrete).

Fomos de "Lupião e os Rolos do Planalto", concorrente do festival deste ano. A descrição: "bife de carne de sol recheado com CPI'S, liminares e especiarias, purê de jerimum e macaxeira palha". Entre as liminares estão queijo coalho, feijão de corda e manteiga de garrafa. Tudo muito bem servido e delicioso!

Do vasto e apetitoso cardápio também provamos os bolinhos de feijão, que se parecem com massinhas de acarajé. Confesso que senti falta de um molhinho - talvez uns camarões secos, um vatapá, um caruru...

Bar Temático - Rua Perite, 187, Santa Tereza. Tel (31) 3481-4646.

Brincadeira do copo

A foto já mostra o que o espírito botequeiro pode provocar após 12 horas de bar em bar em Belo Horizonte. A saga começou em um sábado (14 de outubro de 2006), com um almoço no Parrilla del Mercado, que fica ao lado do Mercado Distrital do bairro de Cruzeiro - uma versão reduzida do maravilhoso Mercado Central de BH.

Após alguns chopes para curar a ligeira ressaca do dia anterior, sob a orientação do amigo Jack, anfitrião nota dez, pedimos uma saborosa linguiça de cordeiro e deliciosas batatas assadas com creme de roquefort. O protagonista foi  um belo corte de carne à moda uruguaia com um molho ao poivre [de chorar de felicidade] e mais batatas com roquefort.

Muitos chopes depois, os animados foram direto ao Estabelecimento, bar aberto pelo Gibi - empreendedor do mercado botequeiro de BH - onde o querido Jomar (na foto) sempre dá uma uma palhinha na roda de samba. A presença do queiro amigo fluminense cantando samba e todo o esquema de fundo de quintal do Estabelecimento dão um espírito carioca ao boteco mineiro. A porção de asinhas de galinha com molho especial, apesar de um pouquinho salgada, caiu muito bem com o samba e a cerveja, como sempre, estupidamente gelada.

A roda de samba acabou, mas a diversão não. Deixamos o quintal a pé em busca de uma nova acolhida. De portas abertas, o Gibi, que é a cara do Tom Zé, nos recebeu no bar que leva seu nome, pela segunda vez. O lugar tem um pique mais paulista, com páginas de clássicos dos quadrinhos, como o Recruta Zero, decorando as paredes. No dia anterior tinhamos provado o excelente caldinho de bobó de camarão e um mito: pescoço de peru.

O Gibi diz que um dia tinha sobras de pescoço de peru - natalinas talvez - e foi ver no que dava. O ensopado é bem temperado, o processo de degustação é, como diz o ditado, como 'carne de pescoço', mas o sabor não é surpreendente. Já comi pescoço de peru. Pronto. Próximo!

Voltando à saga, no segundo dia do Bar do Gibi, eu e Clau resolvemos pedir bolinho de espinafre. Peso na consciência? Necessidade de comer verdura à uma da manhã? Bom, era bem frito, o que elimina qualquer uma das preocupações anteriores, bem gostoso, todo mundo comeu e repetiu.

Lá pelas tantas, os meninos resolveram fazer a primeira brincadeira do copo e me aplicaram um teste cego. Como eu não acompanhei a mesa e quis pedir Original dizendo que era muito melhor que Brahma, três copos depois, trocaram o meu e continuei bebendo a minha Originalíssima Brahma, até que começaram a me perguntar se a Original estava boa.

Tenho a desculpa de ter perdido o paladar, já que estávamos no terceiro boteco do dia, mas isso não resolve tudo. Fiquei com a pulga atrás da orelha. Será que eu teria escolhido a Kaizer naquele teste cego divulgado este ano indicando a 'não-cerveja' como favorita? Não... não... nem pensar!

Os espíritos botequeiros brincalhões não se deram por satisfeitos. O Gibi (Tom Zé) tinha de fechar as portas então fomos dar uma volta em busca de outro boteco aberto, o que costuma ser raro em BH, na alta madrugada. A solução foi comer algo para forrar o estômago antes de dormir. Coisa leve. Só um mexidão mineiro bem servido e mais... um poquinho... de cerveja...

Alê e Clau conseguiram levantar, no dia seguinte, para fazer um cooper no Mercadão tentando comprar o máximo de queijos e doces antes que as portas se fechassem, às 13h, no domingo. Me lembro de pedir para o Alê comprar doce de leite e dizer "nunca mais vou me levantar..."

Parrilla del Mercado - Rua Ouro Fino, 452, Mercado Distrital, Cruzeiro. Tel (31) 3225-5507

Estabelecimento - Rua Monte Alegre, 160, Serra. Cel: (31) 9666-1569

Bar do Gibi - Rua Cláudio Manoel, 329, Funcionários. Cel: (31) 9737-1290

Mercado Central - Av. Augusto de Lima, 744, Centro.

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